quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Olhar

   

     Olhar, é o que as pessoas fazem todos os dias. Olham umas para as outras enquanto correm para o trabalho, com os olhos semi-cerrados depois de uma noite mal dormida, ou quando voltam para casa, ao final de mais um dia cansativo. E é mesmo isso, mais um dia, que passou sem se dar por isso e sem ser valorizado. Olhamos, olhamos e voltamos a olhar, na verdade não vemos nada. 
     Pela primeira vez, senti que alguém realmente me viu numa visita ao hospital, numa manhã em que fiz voluntariado e fomos animar o serviço de pediatria. Não me lembro do nome, mas lembro-me tão bem da cara daquela menina, tão pequenina, tão indefesa e que passou dez minutos a brincar comigo com um sorriso feliz e tão sincero que me preencheu a alma. No fim, quando lhe disse adeus, olhou-me com uns olhos tão abertos, tão escuros e profundos e que em silêncio me diziam tudo. Ela viu-me. Disse-me adeus, só com aquele olhar, que nunca vou esquecer e que por mais que tente não consigo descrever minimamente o que me fez sentir. Achei-me pequena, insignificante, perto daquela criança tão pequena e que ao mesmo tempo dizia mais que eu apenas com um olhar.


M



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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Despedidas


     Vazio. Uma, duas, três vezes, olho para estas quatro paredes e apercebo-me de que restamos apenas eu e o nada. O vazio da tua ausência, que me prende durante horas a pensar em "ses" infundados e me faz querer correr sem parar até conseguir deixar de pensar tanto e apenas fazer. Fazer o que o coração e a alma mandam, e, por momentos, deixar de fora o que a consciência diz.
     Agora tenho-te, amanhã já partiste. É sempre assim. A vida é feita de partidas e chegadas, abraços apertados de felicidade por te ter finalmente e abraços apertados de quem sabe que tem que te deixar ir mas de quem a vontade era que ficasses. A diferença é enorme. Beijo-te, abraço-te, viro costas e tento ir embora sem olhar para trás, sem sentir um murro no estômago e um aperto no peito que não sei de onde vêm. Nunca consigo, páro e tenho que te olhar mais uma vez, mesmo que já não me vejas, mesmo que já tenhas partido, tenho que tentar. 
     Depois sim, fecho os olhos, dou meia volta e vou embora. Acelero o passo, penso que vais voltar mesmo não sabendo quando, limpo as lágrimas que vão caindo pelo caminho e apanho os pedaços de mim que perdi quando me deste aquele último abraço. É assim cada vez que vais. Algures dentro de mim, tenho a ideia de que isto nos torna melhores, com mais certezas sobre se os sentimentos são verdadeiros e fortes o suficiente para sobreviveram às despedidas que passaram e às que virão.




M



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