domingo, 14 de maio de 2017

Quartos de hotel e lições de vida

Um mês, um quarto de hotel, um tempo que de livre pouco tem.

Dou por mim, num domingo à noite em frente ao computador - a companhia disponível neste quarto de hotel - a olhar pela janela para a estação de comboios aqui ao lado. Não sei porquê, mas há qualquer coisa na forma como a noite transforma o aspecto daquela estação que lhe dá um encanto que não sei descrever. Um encanto que me faz pensar no vai e vem, no ir, no ficar, no divagar.

Ontem visitei um parque com jardins a perder de vista, com uma paz e uma cor que me encheram de vida e de calma. Faltou-me, como me falta agora quando olho para estas quatro paredes, a companhia com quer partilhar estes momentos. E isso, às vezes é só uma ideia remota, noutras é um pensamento constante que não sei evitar. Trabalho, hotel.. hotel, trabalho. Passeios sozinha ao fim-de-semana. É a isto que me resumo?

Tive a tentação de ir falar contigo, de tentar partilhar um bocadinho disto contigo na esperança (tola) de que percebesses que queria mesmo poder partilhar estes momentos de liberdade contigo. Pensei duas vezes e mantive este silêncio que, agora, já parece inquebrável. Pergunto-me se estás mesmo feliz com o caminho que escolheste.

Conheci, na volta do passeio pelo parque, um senhor nos seus quase 70 anos sentado numa esplanada no centro da cidade. Um senhor cheio de histórias e sorrisos para partilhar e com uma incrível sensação de serenidade para transmitir. Partilhou a história da filha que adotou e que não pode visitar mais porque está na China, onde pessoas estrangeiras com mais de 60 anos não podem entrar. Partilhou, também, a história da morte da sua mulher há 5 anos atrás e o sentido que encontrou em viajar pelo mundo a fazer o seu trabalho (engenharia de pontes).

Encontrei-o hoje, novamente, contou-me que tinha ido ao parque que lhe tinha indicado e que tinha gostado muito. Vinha ensopado, depois de uma chuva repentina que caiu e, quando lhe disse que tinha dito azar com o dia escolhido para lá ir sorriu e disse "Não, fui no tempo em que tinha de ir". E foi embora, para o seu quarto de hotel, onde vai ficar durante o próximo ano.

Deixou-me desarmada, mas acho que percebi a mensagem. Foi um bom fim-de-semana fora deste quarto de hotel.


M